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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A infância de Ivan


A INFÂNCIA DE IVAN (Ivano detstvo), Andrei Tarkovsky

Contratado para rodar um filme de guerra em 1962, Andrei Tarkovsky, uma das grandes lendas do cinema, faz a sua estreia em longa-metragens com A infância de Ivan Ainda que tímido, já que o filme tem pouco mais de 90 minutos de duração e não levante grandes questionamentos artísticos e filosóficos - uma das características de Tarkovsky -, a marca autoral do diretor é evidente, tanto pela beleza fotográfica quanto pelo onirismo das cenas, com impecável sincronismo com diálogos e imagens.

A estreia de Tarkovsky em longas consiste num denso e significantemente rico trabalho. Ivan é uma criança de 12 anos cuja família foi massacrada por soldados nazistas e que vive em constante busca por vingança, trabalhando como espião para o exército russo. Em meio aos horrores da guerra mais devastadora da história, Ivan cria vínculos afetivos com capitães e oficiais, em uma busca por afeto; se endurece por fora, tornando-se frio e rude em relação aos outros, mas mantendo, através de sonhos, desejos simples de comunhão, inocência e alegria, misturados com lembranças de uma época de paz.
Ao lado de Ivan, Masha, uma inocente tenente, permanece deslocada no rústico acampamento russo, onde vive supostas descobertas sexuais e comportamentais. Masha é uma espécie de reflexo de Ivan: uma figura despreparada, obrigada a lançar-se num mar de terror e malícia, que assusta, e força o mimetismo para melhor adaptação ao nocivo ambiente onde agora vivem.

A infância de Ivan deixa claro que seu diretor se destacaria cada vez mais até se consolidar como grande nome do cinema russo, evidencia a capacidade do homem em lidar com seu próprio estrago e em manter-se independente ao mundo que o cerca e, por fim, é uma cabal lição de como se narrar, filmar e fotografar um filme absolutamente irretocável nesses aspectos.


segunda-feira, 23 de março de 2009

Pistoleiros do entardecer


PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the high country), Sam Peckinpah

No início dos anos 60, quando Sam Peckinpah, o poeta da violência, ainda não ostentava esta alcunha, o gênero faroeste ganhava, graças a ele, uma obra de sensibilidade única, o excelente Ride the High Country, que recebeu o digno nome de Pistoleiros do Entardecer no Brasil.

Ambientado maravilhosamente em uma época posterior à era clássica dos westerns, o filme narra uma aventura a qual o velho Steve Judd (Joel McCrea) se voluntaria a transportar uma carga de ouro, da mina até o banco da cidade. Para conseguir se dar bem nesse trabalho, Judd contrata o reforço de Gil Westrum (Randolph Scott), um velho amigo dos old times e de Heck Longtree (Ron Starr), uma espécie de jovem aprendiz do velho. Durante a viagem, a jovem Elsa Knudsen (Mariette Hartley) se agrega à trama, formando par romântico com Heck, um romance que é extremamente bem conduzido e que oferece um dos detalhes mais belos da história.

Numa tradução literal, "Ride the High Country" significa “Cavalgada no desfiladeiro”, referência mais do que clara ao trajeto percorrido pelo grupo durante a viagem, que, na verdade, não tem objetivos mercenários, como o fanático pai da jovem Elsa afirma, mas, sim, nostálgicos. A nostalgia está nas conversas de Judd e Westrum, que nunca são aleatórias, pois se tratam de escolhas, sejam as que já foram tomadas ou aquelas que ainda podem ser feitas. E no confronto das idéias pessimistas articuladas de Judd com as – provavelmente – sábias de Judd, o casal de jovem não se preocupam. Nem com a frágil amizade, nem com o ouro que estão carregando, muito menos com filosofias sobre a vida, mas se concentram no agora, no romance e na paixão. Esse comportamento serve de contraste com as atitudes e comentários dos velhos, que são carregados com desesperança, como se não valesse à pena se preocupar com um momento que pode nem chegar, enquanto os jovens se concentram em ‘viver’ o futuro: vou me casar, vou aprender, vou te levar, vou ficar livre, etc.

Durante o caminho de volta, Westrum tenta roubar o outro do ex-amigo, com a ajuda de Heck, mas não consegue, sendo os dois então, obrigados a voltar para a cidade algemados. Pela traição, os dois velhos amigos se separam, voltando a se encontrar mais tarde, onde, juntos, duelam com três homens, e vencem, parcialmente. Parcialmente porque Judd é atingindo por vários tiros e morre ali m esmo, no ponto mais baixo do desfiladeiro, bem perto da cidade, na cena mais bonita e significativa do filme.

Peckinpah tem aqui uma direção formidável, que oferece um bom suporte ao filme, já que a história, apesar de bonita e cheia de boa intenção, é inconstante, enfraquece em vários momentos, especialmente naqueles que antecedem a chegada de Judd, Heck e Elsa ao cenário final, já mencionado no último parágrafo. Mas com um excelente uso da trilha, da edição e de filmagem, o filme conta com toques expressionistas, que são até usuais nos filmes do poeta, numa espécie de réquiem effect, que pode ser observado em cenas como a que fecha o filme ou o casamento de Elsa, por exemplo. Peckinpah magnífica o roteiro de NB Stone Jr (que ele ajudou a escrever) e faz com que Pistoleiros do entardecer (poético nome, numa das “traduções” mais acertadas já feitas) seja um filme incrível, inteligente e divertido demais.