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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Soberba


SOBERBA (The magnificent Ambersons), Orson Welles

Era de se esperar que depois te ter lançado uma obra transgressora indicada ao Oscar de melhor filme (Cidadão Kane), Orson Welles teria carta branca para trabalhar como bem quisesse. Porém, não foi bem isso que aconteceu. Welles filmou, em 1942, Soberba, baseado no livro de Booth Tarkington. A duração original do filme seria de pouco mais de duas horas e meia, mas devido ao mau desempenho nas bilheterias, excluiu-se mais de uma hora de filme, por ordem da produtora (RKO Radio Pictures), que acreditava na recuperação do prejuizo nos primeiros dias em função deste corte.

Torna-se, portanto, inútil tecer comentários aprofundados acerca do filme, já que as intenções de primordiais de Orson Welles ficaram na sala de edição. Pode-se ver nos 86 minutos do filme hoje apenas resquícios daquilo que poderia ser um tratado sobre aristocracia e modernidade. Sem esse estudo completo, o filme tornou-se um fraco romance de absurda conveniência.

Não se pode deixar de notar, entretanto, que a megalomania de Welles se faz evidente nesse trabalho, que foi pretensioso, já que as cenas raramente são interrompidas por cortes, o que constituiu com toda a certeza um trabalho preciso de direção, fotografia e atuação.

Por fim, Soberba não é um bom filme, já que seus objetivos foram muito provavelmente sufocados em pró dos interesses financeiros do produtores. Merece ser visto por fãs do diretor, que tem interesse pessoal em sua difícil trajetória no meio cinematográfico.

sábado, 28 de março de 2009

O estranho


O ESTRANHO (The stranger), Orson Welles

O estranho é prova personificada do talento narrativo do diretor/escritor/ator/produtor Orson Welles. Um thriller fascinante do e sobre o pós-guerra, que além de encantar independentemente de qualquer fator histórico, é polêmico justamente por incitar o perigo de uma conspiração, em uma época onde os contornos que definiram o fim da segunda guerra mundial não estavam completamente claros.

Na história do filme, Orson Welles interpreta o ex-oficial nazista Franz Kindler, responsável pelos planos mais crueis do regime nazista de Adolf Hitler, incluindo o holocausto. Mr. Wilson, um oficial americano da comissão de crimes de guerra, viaja até uma pequena cidade no interior de Connecticut procurando capturar Kindler, com o agravo de que ninguém nunca viu seu rosto, logo, apesar da certeza que Mr. Wilson (e o expectador) tem, ele precisa de uma prova cabal para poder condenar o cruel braço direito de Hitler.

O aspecto mais interessante de O estranho é a forma como Welles manipula a atmosfera. Logo nos primeiros minutos de filme, a edição, iluminação e enqudramentos em geral remetem a uma ambientação tensa, enervante. Mas após um corte-seco, a aura do filme é completamente transformada, assumindo um semblante singelo, alegórico. Esse corte, esse contraste é um excelente exemplo do controle atmosférico e da capacidade e confiança criativa de Orson Welles. Com um trabalho livre, autônomo, e com o humor negro sagaz de sempre, o diretor entrega um excelente trabalho, especialmente bem decupado, editado e fotografado.

Contudo, a impressão que permanece ao final é a de que o filme poderia ser melhor trabalhado, tanto no aspecto do suspense, quanto aos potenciais expositivos do próprio roteiro, mesmo. Enfim, basicamente, é uma direção maravilhosa que corrige, dentro dos limites possíveis, muitos dos vícios do roteiro, mas que infelizmente não consegue revertê-lo a uma obra-prima, apesar de chegar bem perto disso.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A dama de Shangai


A DAMA DE SHANGAI (The lady from Shanghai), Orson Welles


A dama de Shangai constinui no cinema um exemplo cabal de controle narrativo que poucos diretores tem o privilégio de conquistar. Em 1947, numa das fases mais difíceis da sua carreira, Orson Welles lançou com muito esforço aquilo que era, para ele, 3/4 de uma de suas grandes obras. Isso porque dos 122 minutos almejados por Welles, 34 foram cortados na sala de edição. É evidente, dessa forma, que o filme é, no mínimo, diferente do que o diretor havia imaginado, o que não significa nem um pouco que não seja um de seus grandes trabalhos.

Demonstrando extrema confiança na trama que tinha em mãos, Welles começa A dama de Shangai com uma narração em off em estado melancólico, que já avisa ao expectador que suas decisões, desde o primeiro olhar no parque, foram equivocadas. Entregar o que de certa forma é o resultado do plot principal do filme não demonstra apenas segurança, mas também um domínio estratégico excepcional, por deixar o erro iminente, criando uma atmosfera única de suspense que aos poucos se restringe, e sufoca.

Além de uma trama complexa, que flerta perfeitamente com o suspense e com o amor platónico, essa obra-prima detém um trabalho de fotografia maravilhoso, ficando em destaque as cenas noturnas, onde é dado os grandes destaques ao longo da história - e a famosa cena final, apesar de não ser noturna, encaixa-se nessa categoria, por ser filmada em local fechado. A direção de Welles adquire por vezes toques expressionistas, que se evidenciam por exemplo, numa das primeiras cenas do filme onde, a luz é frenética mas estabiliza-se à medida que Michael e Elsa se aproximam, ou como a mesma luz sempre parece perseguir (estar na) a donzela.

A dama de Shangai é uma obra-prima poderosa, que investindo-se na mente do protagonista, interpretado pelo próprio diretor, discursa sobre paixões, ganância, sociedade, índivíduo e sensualidade, sem nunca deixar de lado a típica estética noir, que funciona no filme não como uma limitação, mas como um incentivo,um adorno. Um trabalho de extrema importância física e referencial, do diretor mais louco e provavelmente genial que a old hollywood já viu.