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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Matou a família e foi ao cinema


MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA, Julio Bressane

No conturbado cenário do regime militar de 1969, se destaca no cinema nacional essa obra peculiar do Julio Bressane, um dos cineastas que contribuir grandemente para o movimento do cinema marginal dos anos 60 e 70 no Brasil.

Musical com canções que vão de Roberto Carlos até Carmen Miranda, o filme pode passar a impressão de ser fundamentalmente aleatório, porém, há uma linearidade evidente, não cronológica-temporal, mas narrativa, que interliga todos os crimes e acontecimentos uns aos outros através do condutor político do Brasil de 69. Não é de se espantar que os sentimentos dos personagens estejam tão à flor-da-pele. A pertubação se esconda nas sombras das imagens, exercendo pressão psicológica tal que filho mata pai, pai mata filho e, longe de casa, há alguém sendo torturado, dando sua contribuição para o horror da ditadura.

Inteligente, precário e sensacional em seu humor ácido e verdadeiro, na sua metalinguagem desconfortante e nas suas imagens cruas e vitais, Matou a família e foi ao cinema é clássico marginal repleto de ironia, revolta e violência, um dos grandes filmes protagonizados por nossa terra.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A dama de Shangai


A DAMA DE SHANGAI (The lady from Shanghai), Orson Welles


A dama de Shangai constinui no cinema um exemplo cabal de controle narrativo que poucos diretores tem o privilégio de conquistar. Em 1947, numa das fases mais difíceis da sua carreira, Orson Welles lançou com muito esforço aquilo que era, para ele, 3/4 de uma de suas grandes obras. Isso porque dos 122 minutos almejados por Welles, 34 foram cortados na sala de edição. É evidente, dessa forma, que o filme é, no mínimo, diferente do que o diretor havia imaginado, o que não significa nem um pouco que não seja um de seus grandes trabalhos.

Demonstrando extrema confiança na trama que tinha em mãos, Welles começa A dama de Shangai com uma narração em off em estado melancólico, que já avisa ao expectador que suas decisões, desde o primeiro olhar no parque, foram equivocadas. Entregar o que de certa forma é o resultado do plot principal do filme não demonstra apenas segurança, mas também um domínio estratégico excepcional, por deixar o erro iminente, criando uma atmosfera única de suspense que aos poucos se restringe, e sufoca.

Além de uma trama complexa, que flerta perfeitamente com o suspense e com o amor platónico, essa obra-prima detém um trabalho de fotografia maravilhoso, ficando em destaque as cenas noturnas, onde é dado os grandes destaques ao longo da história - e a famosa cena final, apesar de não ser noturna, encaixa-se nessa categoria, por ser filmada em local fechado. A direção de Welles adquire por vezes toques expressionistas, que se evidenciam por exemplo, numa das primeiras cenas do filme onde, a luz é frenética mas estabiliza-se à medida que Michael e Elsa se aproximam, ou como a mesma luz sempre parece perseguir (estar na) a donzela.

A dama de Shangai é uma obra-prima poderosa, que investindo-se na mente do protagonista, interpretado pelo próprio diretor, discursa sobre paixões, ganância, sociedade, índivíduo e sensualidade, sem nunca deixar de lado a típica estética noir, que funciona no filme não como uma limitação, mas como um incentivo,um adorno. Um trabalho de extrema importância física e referencial, do diretor mais louco e provavelmente genial que a old hollywood já viu.