Mostrando postagens com marcador noir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador noir. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de agosto de 2009

O samurai


O SAMURAI (Le samourai), Jean-Pierre Melville

O Samurai é um neo-noir francês de 1967 dirigido e escrito por Jean-Pierre Melville, adaptado do mais clássico código de conduta samura: Bushido. Na história, Alain Delon interpreta de forma genial Jef Costelo, um matador de aluguel profissional contratado para liquidar o dono de um refinado restaurante.

O trabalho de adaptação de uma obra clássica japonesa para um policial francês dos anos 60 é genial. Construido de forma sublime, Costelo é um homem contemporâneo com uma conduta de cavaleirismo quase feudal. Solitário, frio e empenhado em sua profissão. Cenas que mostram Costelo prestes a sair de casa, por exemplo, são maravilhosas, ao mostrar que o homem, mesmo morando em um flat pouco prático, pouco limpo e pouco conservado, se veste e se porta de forma irretocavelmente fina.

O desenvolvimento do caractere de Delon é igualmente magnífico: somos introduzidos a Costelo de forma repentina, e acompanhamos seus preparativos antes de realizar o crime para o qual foi contratado com uma crueza narrativa quase documental. Poucos diálogos, cenas longas e íntimas. Somos pouco a pouco conduzidos pela parcialidade sutil de Melville a repudiarmos seu personagem, ou pelo menos a não observá-lo de forma positiva, característica latente durante os minutos finais, onde Costelo segue motivado por vingança e termina por resumir sua existência em poucas palavras:

"- Por que, Jef?
- Fui pago para isso."

O mais impressionante é a redenção dada por Melville a seu samurai, no último segundo, de forma que não há redenção de fato para Costelo, mas permanece a admiração por sua honra, por seu legado.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O segredo do bosque dos sonhos


O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (Non si sevizia un paperino), Lucio Fulci

O segredo do bosque dos sonhos é mais uma das numerosas obra-primas produzidas na década de setenta e é um dos trabalhos mais elogiados do grande diretor italiano Lucio Fulci. Um mix interessante de faroeste, thriller e filme policial, a história se concentra em misteriosos assassinatos a crianças de um pequeno e supersticioso vilarejo no interior da itália.

À época do modernismo, o contraste feito por Fulci é bastante interessante. O vilarejo é tão atrasado e fechado em sua própria cultura mística, que tem-se a impressão de se tratar de um outro universo. Com o início dos assassinatos (primeiramente, três crianças são assassinadas), pessoas de outras cidades - dentre elas jornalistas - chegam ao vilarejo (localizado na região da Sicília), e tornam-se perplexos diante da cultura supersticiosa do povo. Um assunto tratado de forma no mínimo interessante pelo filme - direção e roteiro trabalhando em conjunto, para evidenciar esse 'combate'.

O que mais se percebe no filme, apesar da boa história - que funciona não somente como crítica pertinente à época, mas especialmente como suspense mesmo -, é a direção magistral de Fulci. Com uma câmera objetiva e ágil, o diretor conseguiu empregar um ritmo maravilhoso ao filme - muito mais agradável do que os gênios italianos das décadas de 60 e 70 conseguiram ser. Lucio Fulci se dá ao luxo de inclusive flertar com o noir e com o expressionismo, dando à luz a um dos grandes filmes europeus da história.

Violência e horror nas doses certas, um orçamento médio para uma produção impecável, O segredo do bosque dos sonhos é tido como um dos grandes trabalhos de Fulci, é angustiante, veloz e sincero, tendo servido de inspiração para grandes trabalhos dos nossos dias, inclusive a cena mais famosa (a tortura de Mr. Blonde) em Cães de Aluguel (de Quentin Tarantino). Indispensável para os fãs e futuros fãs do gênero, e volto a dizer, um trabalho de direção e fotografia que devem ser invejado por quem trabalha no mundo cinematográfico.


sábado, 28 de março de 2009

O estranho


O ESTRANHO (The stranger), Orson Welles

O estranho é prova personificada do talento narrativo do diretor/escritor/ator/produtor Orson Welles. Um thriller fascinante do e sobre o pós-guerra, que além de encantar independentemente de qualquer fator histórico, é polêmico justamente por incitar o perigo de uma conspiração, em uma época onde os contornos que definiram o fim da segunda guerra mundial não estavam completamente claros.

Na história do filme, Orson Welles interpreta o ex-oficial nazista Franz Kindler, responsável pelos planos mais crueis do regime nazista de Adolf Hitler, incluindo o holocausto. Mr. Wilson, um oficial americano da comissão de crimes de guerra, viaja até uma pequena cidade no interior de Connecticut procurando capturar Kindler, com o agravo de que ninguém nunca viu seu rosto, logo, apesar da certeza que Mr. Wilson (e o expectador) tem, ele precisa de uma prova cabal para poder condenar o cruel braço direito de Hitler.

O aspecto mais interessante de O estranho é a forma como Welles manipula a atmosfera. Logo nos primeiros minutos de filme, a edição, iluminação e enqudramentos em geral remetem a uma ambientação tensa, enervante. Mas após um corte-seco, a aura do filme é completamente transformada, assumindo um semblante singelo, alegórico. Esse corte, esse contraste é um excelente exemplo do controle atmosférico e da capacidade e confiança criativa de Orson Welles. Com um trabalho livre, autônomo, e com o humor negro sagaz de sempre, o diretor entrega um excelente trabalho, especialmente bem decupado, editado e fotografado.

Contudo, a impressão que permanece ao final é a de que o filme poderia ser melhor trabalhado, tanto no aspecto do suspense, quanto aos potenciais expositivos do próprio roteiro, mesmo. Enfim, basicamente, é uma direção maravilhosa que corrige, dentro dos limites possíveis, muitos dos vícios do roteiro, mas que infelizmente não consegue revertê-lo a uma obra-prima, apesar de chegar bem perto disso.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A dama de Shangai


A DAMA DE SHANGAI (The lady from Shanghai), Orson Welles


A dama de Shangai constinui no cinema um exemplo cabal de controle narrativo que poucos diretores tem o privilégio de conquistar. Em 1947, numa das fases mais difíceis da sua carreira, Orson Welles lançou com muito esforço aquilo que era, para ele, 3/4 de uma de suas grandes obras. Isso porque dos 122 minutos almejados por Welles, 34 foram cortados na sala de edição. É evidente, dessa forma, que o filme é, no mínimo, diferente do que o diretor havia imaginado, o que não significa nem um pouco que não seja um de seus grandes trabalhos.

Demonstrando extrema confiança na trama que tinha em mãos, Welles começa A dama de Shangai com uma narração em off em estado melancólico, que já avisa ao expectador que suas decisões, desde o primeiro olhar no parque, foram equivocadas. Entregar o que de certa forma é o resultado do plot principal do filme não demonstra apenas segurança, mas também um domínio estratégico excepcional, por deixar o erro iminente, criando uma atmosfera única de suspense que aos poucos se restringe, e sufoca.

Além de uma trama complexa, que flerta perfeitamente com o suspense e com o amor platónico, essa obra-prima detém um trabalho de fotografia maravilhoso, ficando em destaque as cenas noturnas, onde é dado os grandes destaques ao longo da história - e a famosa cena final, apesar de não ser noturna, encaixa-se nessa categoria, por ser filmada em local fechado. A direção de Welles adquire por vezes toques expressionistas, que se evidenciam por exemplo, numa das primeiras cenas do filme onde, a luz é frenética mas estabiliza-se à medida que Michael e Elsa se aproximam, ou como a mesma luz sempre parece perseguir (estar na) a donzela.

A dama de Shangai é uma obra-prima poderosa, que investindo-se na mente do protagonista, interpretado pelo próprio diretor, discursa sobre paixões, ganância, sociedade, índivíduo e sensualidade, sem nunca deixar de lado a típica estética noir, que funciona no filme não como uma limitação, mas como um incentivo,um adorno. Um trabalho de extrema importância física e referencial, do diretor mais louco e provavelmente genial que a old hollywood já viu.

sábado, 2 de agosto de 2008

No silêncio da noite


NO SILÊNCIO DA NOITE (In a lonely place), Nicholas Ray


Negro. Negro é o filme, negro é o passado de Dixon Steele que, ao invés de esconder algo perverso, guarda desejos, desejos que foram tragados pelo tempo. Não que No silêncio da noite mostre que Dix chegara cheio de sonhos e esperanças ao mundo do cinema (mundo? mundo.), mas a melancolia dos ensejos frustrados da personagem estão estampados em alto-relevo na expressão quase majestosa de Humphrey Bogart. Mas como culpar um trabalhador (e se eu digo trabalhador e não escritor porque a ótica que o filme propõe não se limita à old hollywood) que é vítima do próprio sistema, que desmotiva e substitui? Se os velhos são colocados de lado para que os motores da fábrica (de filmes) recebem óleo novo, como persistir na idéia de que “um dia farei algo bom”? Numa luta constante contra o tempo, Dix Steele está apanhando, e, com o passar dos dias, vagarosamente, se torna um fracassado.

E tem esse homem, Dixon Steele, que é um escritor de cinema que se sente constantemente fracassado, e aí ele recebe a proposta de fazer uma adaptação de um livro para o cinema, um livro que ele acha muito ruim e que aumenta sua sensação de desconforto com o sistema que o controla. E aí...

Clara. Clara é a mulher, claro é anjo, que dá falta de contraste (porque ela é clara, iluminada demais!) toma a forma do próprio contraste, estabelecendo-se como o extremo oposto de Dix. Laurel Gray é suave, tão suave como uma jovem mulher sonhadora pode ser. Por muitas vezes é inexpressiva, mas quem precisa de expressão em um filme onde ela está diretamente ligada ao fracasso, à melancolia? Não, eu vou ficar com a maciez da jovem Gray (e os holofotes ficam sobre ela também, e todo mundo percebe!). A conexão entre o preto e o branco é imediata. Laurel e Dix se apaixonam e se desejam e ela se transforma em sua musa inspiradora e finalmente resolve deixar a desmotivação para trás e começa a se dedicar ao trabalho de (trabalhar; viver) escrever.

Assassinato! Dix levou a jovem e inocente Mildred Atkinson para sua casa, porque ele queria que ela contasse pra ele a história do livro, porque ele tava tão chateado mas tão chateado com a idéia de adaptar algo tão ruim, que nem queria se dar ao trabalho de ler. Mas quando ela voltava de taxi para a casa, ela foi brutalmente assassinada, covardemente arremessada pra fora de um carro em movimento. O suspeito primordial do crime foi o Dix, né. Aí, já viu...

Suspeito de cometer um crime, Dix faz piadas e se mostra indiferente à trágica morte da jovem. Ele culpa sua experiência (em contos de crime e mistério) pelas mórbidas brincadeiras em relação ao assassinato em questão e são essas experiências a chave para se TENTAR entender a mente do escritor. “Já matei dúzias de pessoas... nos filmes”, ele diz, sem perceber que com essa única frase Dix enterra qualquer oportunidade de argumentação sobre seu sucesso profissional, pois, apesar do tempo ter se passado o suficiente para que ele pudesse ter dado fim a dúzias e mais dúzias de vidas... nos filmes, ele ainda “não é ninguém”. Ninguém. Vítima daquilo que o cerca, Dix há muito ultrapassou a Travessa da última gargalhada, e sem rir, endureceu e endureceu, até que a maldição de seu próprio nome caísse sobre si, Dix Steele é agora duro como aço e, o twist que esse metal, a pressão (dos policiais) e a desconfiança (da namorada) criam dão origem a um licor amargo e rude, que o homem bebe com prazer, na sua busca por um sentido à sua agora fracassada vida.

Todo mundo começou a desconfiar dele, a acusar o pobre coitado e aí ele fica violento mesmo, fazer o que, até bateu em um cara na estrada. Só que aí, ah é, tem uma garota que ele conhece, e quer se casar com ela, mas ela não quer porque acha que foi ele que matou a menina, a Atkinson. Aí a Lauren – é a garota – tenta fugir, mas ele não deixa e quando descobre fica tão nervoso que tenta matar ela!

“Menosprezado pela fortuna e pelas pessoas, em minha solidão lamento meu desterro, e clamo aos céus com um pranto inútil. Olho pra mim mesmo e amaldiçôo meu destino.” O poema citado pelo ator fracassado Charlie Waterman continua como uma ode ao amor, mas a parte que Dix recebe é tão somente essa e, talvez, ele mesmo tenha ficado acordado apenas para ouvir a composição que foi feita pra ele. Entre “ele não é ninguém” e “você não admite”, Dix personifica o resultado da falha por conseguinte da cobrança de um homem. Dix é o pai de família que, sujo e suado, pega o ônibus de noite pra chegar em casa, comer um pedaço de carne tão sujo e suado como ele próprio, e que só tem tempo de colocar a cabeça no travesseiro pra acordar cedo no dia seguinte. É um fracassado. Um perdedor. Ainda que não admita, é um perdedor. Persiste sempre na luta por uma vida menos ordinária, mas ainda sim, é um perdedor. Afogado em ignorância e rancor, é um derrotado. Derrotado pelas pessoas. Derrotado pelo tempo. Derrotado pela vida

(mas não tem culpa disso).

Ring! O telefone toca e aí ele percebe que tá machucado a Lauren, aí ele para e vai embora, aí ela chora. É ou não é aquilo que eu chamaria de uma epopéia?