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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A infância de Ivan


A INFÂNCIA DE IVAN (Ivano detstvo), Andrei Tarkovsky

Contratado para rodar um filme de guerra em 1962, Andrei Tarkovsky, uma das grandes lendas do cinema, faz a sua estreia em longa-metragens com A infância de Ivan Ainda que tímido, já que o filme tem pouco mais de 90 minutos de duração e não levante grandes questionamentos artísticos e filosóficos - uma das características de Tarkovsky -, a marca autoral do diretor é evidente, tanto pela beleza fotográfica quanto pelo onirismo das cenas, com impecável sincronismo com diálogos e imagens.

A estreia de Tarkovsky em longas consiste num denso e significantemente rico trabalho. Ivan é uma criança de 12 anos cuja família foi massacrada por soldados nazistas e que vive em constante busca por vingança, trabalhando como espião para o exército russo. Em meio aos horrores da guerra mais devastadora da história, Ivan cria vínculos afetivos com capitães e oficiais, em uma busca por afeto; se endurece por fora, tornando-se frio e rude em relação aos outros, mas mantendo, através de sonhos, desejos simples de comunhão, inocência e alegria, misturados com lembranças de uma época de paz.
Ao lado de Ivan, Masha, uma inocente tenente, permanece deslocada no rústico acampamento russo, onde vive supostas descobertas sexuais e comportamentais. Masha é uma espécie de reflexo de Ivan: uma figura despreparada, obrigada a lançar-se num mar de terror e malícia, que assusta, e força o mimetismo para melhor adaptação ao nocivo ambiente onde agora vivem.

A infância de Ivan deixa claro que seu diretor se destacaria cada vez mais até se consolidar como grande nome do cinema russo, evidencia a capacidade do homem em lidar com seu próprio estrago e em manter-se independente ao mundo que o cerca e, por fim, é uma cabal lição de como se narrar, filmar e fotografar um filme absolutamente irretocável nesses aspectos.


sábado, 28 de março de 2009

O estranho


O ESTRANHO (The stranger), Orson Welles

O estranho é prova personificada do talento narrativo do diretor/escritor/ator/produtor Orson Welles. Um thriller fascinante do e sobre o pós-guerra, que além de encantar independentemente de qualquer fator histórico, é polêmico justamente por incitar o perigo de uma conspiração, em uma época onde os contornos que definiram o fim da segunda guerra mundial não estavam completamente claros.

Na história do filme, Orson Welles interpreta o ex-oficial nazista Franz Kindler, responsável pelos planos mais crueis do regime nazista de Adolf Hitler, incluindo o holocausto. Mr. Wilson, um oficial americano da comissão de crimes de guerra, viaja até uma pequena cidade no interior de Connecticut procurando capturar Kindler, com o agravo de que ninguém nunca viu seu rosto, logo, apesar da certeza que Mr. Wilson (e o expectador) tem, ele precisa de uma prova cabal para poder condenar o cruel braço direito de Hitler.

O aspecto mais interessante de O estranho é a forma como Welles manipula a atmosfera. Logo nos primeiros minutos de filme, a edição, iluminação e enqudramentos em geral remetem a uma ambientação tensa, enervante. Mas após um corte-seco, a aura do filme é completamente transformada, assumindo um semblante singelo, alegórico. Esse corte, esse contraste é um excelente exemplo do controle atmosférico e da capacidade e confiança criativa de Orson Welles. Com um trabalho livre, autônomo, e com o humor negro sagaz de sempre, o diretor entrega um excelente trabalho, especialmente bem decupado, editado e fotografado.

Contudo, a impressão que permanece ao final é a de que o filme poderia ser melhor trabalhado, tanto no aspecto do suspense, quanto aos potenciais expositivos do próprio roteiro, mesmo. Enfim, basicamente, é uma direção maravilhosa que corrige, dentro dos limites possíveis, muitos dos vícios do roteiro, mas que infelizmente não consegue revertê-lo a uma obra-prima, apesar de chegar bem perto disso.