Filme cult da aurora dos anos 70, Corrida sem fim embarcou na onda do movimento hippie para estabelecer o seu foco narrativo. Esse trabalho de Monte Hellman fracassou nas bilheterias e foi extremamente criticado na época, por ser um filme de ritmo lento e com feições introspectivas. Mas a verdade é que é uma obra notória sobre a juventude, e não só aquela que se auto-exaltava nas décadas de 60 e 70.
O filme MOSTRA um pequeno trecho na vida de dois jovens, conhecidos no filme apenas como The Driver e The Mechanic (o que escancara a primeira das observações de Hellman - os jovens muitas vezes não possuem identidade própria e assumem-se para si próprios personalidades pouco específicas), que passam os seus dias a disputar corridas, objetivando a sobrevivência. São dois personagens indiferentes a si, ao outro e a quem os assiste. Duas pessoas que resumem a sua existência a simplesmente viver, sem tracejar metas e objetivos. Esse aspecto imediatista também é uma observação pertinente do roteiro em relação ao espírito juvenil.
A entrada da personagem The Girl, ao invés de dar fôlego novo à história, vem para confirmar os pontos abordados até então. A garota não tem ambições, não deseja ir para lugar algum e vive pegando caronas com estranhos. Observamos aqui o desapego, outro aspecto relevante ressaltado pelo filme do Hellman.
Até que temos a chegada de GTO, um personagem mais maduro, na faixa dos trinta e cinco anos. GTO não é mais jovem e, com um contraste poético entre os três personagens narrados até então, ele possui sonhos e fala sobre eles.
GTO chega à trama para disputar uma corrida com The Driver, e se apega a essa disputa com determinação, ao contrário do que se verifica com os jovens do outro carro (um two-lane blacktop, título original do filme), que demonstram um claro descompromisso com o que se propuseram a fazer.
Corrida sem fim é um trabalho definitivo sobre uma época da história do século XX e sobre uma etapa da vida de qualquer pessoa. É um filme de beleza poética, onde os objetivos da narrativa se concentram no interior das personagens e como tal deve ser reverenciado. É uma pena que o filme se arraste tanto para provar e narrar essas observações, já que todo o trabalho poderia ter sido feito em menos tempo e com um ritmo mais aceitável. Mas é, com toda certeza, um filme que deve ser visto e estudado.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Paranoid Park
PARANOID PARK, Gus Van Sant
Seus pais estão se separando e algo em sua vida está se transformando, porém, Alex não sabe exatamente o que. Ele até gostaria de falar sobre isso com alguém, mas acha que seria egoísmo de sua parte, levando em consideração que o noticiário na televisão e os jornais estampam o sensacionalismo, incitando as pessoas a terem dor, a terem preocupações e a terem ódio. O mundo está em guerra, as pessoas estão se matando e os skatistas do Paranoid Park (aqueles sim sabem o que é sofrer de verdade) estão... Lá.
É a educação repressiva que impõe aos jovens a idéia errada de que é um fardo para eles também carregarem as guerras, fomes, viciados, privando-os de suas próprias enfermidades. A bagunça no universo jovem de Alex é tanta, que ele se isola, tranca-se dentro de si mesmo, dentro do Paranoid Park – o lugar para o qual ninguém está pronto e, em silêncio, fala.
Como conseqüência de suas visitas ao skate park, Alex se envolve em um acidente, causa a morte de um homem, um fato que se agrega à sua teia de problemas, e aí, mais confusão, perturbação e silêncio fazem parte de sua rotina. Antes, ele não conversava para não se passar por egoísta (entrando num jogo de aparências e comportamento aqui, já que na verdade ele não se importa com um mundo que não seja o seu), mas agora, ele não se abre, por ter feito algo errado.
Paranoid Park existe em função de uma carta que Alex escreve para a amiga, apenas como pretexto para tirar de cima dos ombros o peso de sua atitude imprudente no acidente. Mas curiosamente, na carta – no filme – a morte do homem assume o segundo plano da narrativa. O lápis, a peça que assume o papel do link que conecta Alex ao mundo dos que se exprimem, não consegue evitar o desabafo e, ao mundo, Alex conta sobre seus problemas em relação à família, a situação delicada em que vivem os seus pais, seu relacionamento plástico e isolado com os amigos e a namorada. No final, o seu grito vai ao fogo e o jovem volta às suas origens oprimidas, unindo a sua voz com a de outros, que se expressam, não com a boca, mas com atitudes, por horas infantis, outras rebeldes, mas acima de tudo, livres.
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